Carta ao general.

Posted: terça-feira, 10 de maio de 2011 by Gustavo in
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Caro General T

Escrevo para o senhor, pois nestes dias estou tendo um problema sério, de escala alarmante, como o senhor sabe, nesta guerra pela liberdade vemos todo o tipo de gente lutando pelos seus ideais: homens, mulheres e crianças, tudo para garantir a sobrevivência neste mundo que não é para os fracos. Treinei por muitos anos em praticamente todas as artes de matar, sei como funciona cada artéria, cada músculo, cada órgão, e sei como fazer cada um desses parar quando necessário, sei as táticas dos meus inimigos só pelo seu jeito de correr, e muitas vezes nem eles mesmos sabem.

Mas o problema, General, não são minhas habilidades em armas, o que realmente aconteceu foi que à uma semana atrás, encontrei algo que me fez parar de atirar, uma mulher, uma dama, como muitas outras que eu já vi, mas havia uma diferença tremenda, suas habilidades. Sua velocidade faria um guepardo ter inveja, Sua visão, uma coruja e sua astúcia, uma raposa. Até que chegou o momento chave, eu e ela, lados diferentes, só um sairia vivo, mirei minha arma direto na cabeça dela, não tinha nada a perder, mas como um inseto numa teia, eu paralisei, todo meu auto-controle que treinei por tanto tempo parou de funcionar, minha mão começou a tremer, A minha mira cedeu, tirei os olhos do meu alvo, o que era aquilo? medo? Ela olhou para mim, guardou a arma e desapareceu, e eu fiquei feliz por saber que naquele momento, eu podia ser mais um pedaço de carne naquele chão desolado, mas eu, senhor, não era, não fui e não serei.

O tempo passou, continuei lutando, como sempre lutei, muitos já me derrotaram: homens, mulheres e crianças, mas ela é totalmente diferente, ela me inspira um sentimento que eu nunca senti antes, não consigo tirá-la da cabeça, sempre quando estou desmotivado à continuar, penso nela, e logo estou 100% dedicado à batalha novamente, confesso que perdi longa horas de sessões de instrução só por estar pensando nela, mas porque isso acontece? Eu não faço a menor idéia, não é pelo desejo do corpo, pois estava completamente uniformizada e seu estado de saúde era questionável, sem contar seu rosto totalmente melado com as sujeiras da guerra que todos nós carregamos nos poros. Não é pelo poder e pela vontade de ser maior, pois sei que matar ela não me fará chegar ao posto de coronel mais rápido, ou fará o senhor me reconhecer como herói de guerra do país, Não é por informação vital, pois é apenas uma soldado normal que deve saber tanto quanto eu sei, o que não irá acrescentar nada tanto em mim quanto no senhor, então ainda me pergunto porque.

Tive a desventura de revê-la em algumas outras batalhas após esse dia de falha, e todos estes dias eu não ousei a chegar perto dela, e por muitas vezes eu nem chegava a olhar só fugia de medo como um veado foge do leão, meus homens, porém, nunca perceberam, achava que eu apenas estava mudando de rota, eu nunca revelaria isso para eles, imagine o que pensariam de mim, como o seu líder? Um homem frágil e covarde? Aquelas cobras estão loucas para achar uma desculpa para me linchar e roubar tudo o que eu tenho e mereço. Outras vezes tentei acerta-la à longa distancia, com meu rifle, via cada um dos seus movimentos, era tão fácil olhá-la desse jeito, tão fácil de matar, acabar com toda esta avalanche de sensações que me assolaram por dias a fio, mas mais uma vez não fui capaz, era pura covardia eliminar a vida de uma pessoa tão habilidosa e versátil de tal jeito.

Mas com toda esta observação, fui gradativamente percebendo algo que começou a me frustrar, e me fazer a passar mais tempo no quartel, deprimido e humilhado, o que eu percebi foi as verdadeiras intenções daquela mulher, até um certo momento, eu achava que ela tinha poupado minha vida por admiração do que eu fiz naquela batalha e não valeria a pena matar uma pérola assim, mas depois fui percebendo que a verdadeira justificativa por eu ainda estar vivo estava nos olhos dela, Revejo aquele momento inesquecível nos meus sonhos e sempre me lembro daqueles olhos, que sempre me lembraram esperança, mas que naquele momento emitiam pena, desprezo ou talvez vergonha, Qual seria a graça de acabar com a vida de um soldado que mal consegue segurar uma arma, que mal encara o próprio inimigo?

Tantos anos caindo e levantando vigorosamente para isso? Para fraquejar diante de uma inimiga um pouco mais forte?

Então finalmente tomei minha decisão final, e é esta decisão que justifica toda a carta, em uma mistura entre observação, geografia e muita pesquisa, descobri onde a base dela reside. Hoje, revisarei tudo o que eu aprendi, desde as regras básicas de guerra até os mais avançados golpes de luta oriental, Hoje escrevo esta carta, certo que amanhã não precisarei escrever mais nada. Mas amanhã, tudo muda, Amanhã meus homens não me acompanharão, tudo o que eu fizer, eu farei só, então peço para o senhor o favor de explicar-los porque todos eles terão que ficar no quartel, não se preocupe comigo, não tenho vergonha das minhas fraquezas, eu aprendo com elas. Amanhã eu acabo tudo o que meu medo começou. Amanhã pisarei na porta daquela base, sem armas, sem colete, sem medo. Amanhã ela sairá daquela base e me olhará, com aquele olhar desdém, e eu vou-lhe abri-lhe um sorriso. Amanhã eu a confrontarei.

Ganhando ou perdendo, minha única meta é olhar nos fundos dos seus olhos mais uma vez e fazê-la sentir tudo o que ela me fez sentir, não infligirei dor ou tortura, porque não é só sofrimento, não a abraçarei ou a beijarei, porque não é só prazer, é muito além disso tudo, mas eu digo general, que é uma sensação inesquecível e não deve ser sentida apenas por mim.

Amanhã, senhor, tenho certeza: eu serei feliz!

Pelo País, Pela Paz e Pela Honra.

Soldado L

2 comentários:

  1. Squiddy says:

    Carta metafórica, cheia de significados.. Muito bem escrita. Parabéns, Soldado L.

  1. Squiddy says:

    Carta super metafórica, muito bem escrita, cheia de significados.. Parabéns, Soldado L.